segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

confissão

hoje teremos almoço em Gomorra
ligo ventiladores em slowbeat
para esfriar o sabor das fezes

Banquete é carne, queijo e molho

estou na noite de Gomorra
meu milkshake reúne jovens
sob os alpendres de meu jardim

Há política no colo quebrado da lua

para mim o inferno em Gomorra
é um engarrafamento vertical
o tempo correndo nos carros parados

Aqui não há ruas de escape

Sodoma e Gomorra, Alessandro Bavari

paga

o deus de fogo, terra e água
aquietara.

mas havendo em Recife
arrefeceu.

insuflou a mancebia
e sem ares de agonia
dissolveu.

Recife "Hellcife", Max Levay

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

r

apaz
implodiu o meu coração

como as veias de um leão
como o canto dos temporais
como o colo da oração
como a partida de meu pai.

eu corri de mim
e achei-me ao fim
estampado em um mural.

escrevi ao pó,
recolhi anzois
que brilhavam a cor do vão,

do não.

Petrified Veins, de Evans, 1955

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Emanuel

I.
naquele dia,
quando me dissestes não,
eras-me tudo
e fostes embora.

não te tinha, nunca te tive,
mas só em ti
encontrei espelho
da palavra desejo.

intenso,
mesmo teu 'não'
foi cuidado e atenção.

eras-me tudo.

II.
te esperei em meu quarto,
deitado na maciez do colchão.
fi-lo côncavo.

adestrei minha fala,
aparei meus versos,
cortei unhas e cabelos.

pus roupas
de tecidos
jamais antes
conhecidos.

visitei rostos,
afaguei ossos,
fiz esboços.

III.
te esperei fitando o desdobrar de meus dedos.
abandonei esquinas e cruzei igrejas.
conheci deus.

foram dias intensos
tateando as frestas do rosário,
estuporado no fervor de minhas preces.
li extasiado os evangelhos e salmos.

e te descobri promessa de advento.

semanas viraram meses
revirando páginas convertido.
mudei os móveis, pintei a sala.

IV.
tu, em mim, jesus menino,
crescias esplendourado.
saltando astros fascinado

e logo feito homem
nutrido da palavra
tocavas-me a vara.

multifacetado alquímico necessário
eras tu no topo de cada lábio.
e eu catava moços enciumado,
cortando-lhes o dorso em retalho.
tornei-me douto em mosaicos.

V.
eras mil habitando meus poros
até que tomei teu nome
a ponto de quase te ter.

mas te vejo hoje só bonito moço viçoso
denso e centrado em calcar teu passo.
porque és dois: carne que rejeita
metáfora que abarrota.

tua partida me deixou um nada
gestado imenso em meu mundo.

Dan Bristy, autoria desconhecida

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

contrato

homem repentino, não cometas a ousadia de me cuidar
cada olhar de afeto fratura uma coluna de minha geleira
e logo sou nada mais que entrega em teu percurso

não cometas a ousadia de ofertar cuidado a quem arde
destruir defesas desarmar minas devassar trincheiras
se apenas caminharás adiante rente a tua rota

não me dês teus olhos vermelhos de trabalho
tuas mãos frouxas de leituras teus pés tortos de sentado
nem escancares teus medos desejos planos de mudança

a quem te quer imerso nas delícias de meu corpo
inteiro em presença de minh'alma sorvendo meu gozo
não me espante.

Título desconhecido, 1978, Zdzislaw Beksinski

busto

nesse domingo
de correções
e mosquitos
clico lívido
num link hábil

e teu rosto vívido

me soca o centro

há fotos que são

um passo ágil
pro cadafalso

China  Bust nº 35, de Ah Xian

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

calvário

não são tuas mãos que me movem

e quando crês andar pelos labirintos de Deus
andas só pelo vapor de teu sopro.

eu te deslumbro a alma
(essa mesma, que crês longínqua e domesticada)
apenas com meu desgosto.

teu verbo é só verbo
o meu é mistério.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

territórios

Tu, irmão, que pegas Rio Doce aos sábados (para gozar as prévias no Carmo), não pegas o mesmo ônibus que eu. E quando em pé, amuado, te vejo do ônibus, sentado em teu carro, te digo: não estás no mesmo trânsito meu. Se pagas, suado, a gasolina, com teu salário, e reclamas se grito por 20 centavos, entendas: não pagas o mesmo preço que eu. A cidade em que vivo, irmão meu, tem dois nomes diante de Deus: murmuro "Abel" e cantas "Prometeu".


Fonte da imagem: Revista OGrito!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Jornal do Dia: Caderno Poesia

1. bem mal me-quer meu bem

quinta:
vai-ter-copa, não-vai-ter-copa,
vai-ter-copa, não-vai-ter-copa, 
vai-ter-copa, não-vai-ter-copa, 
...
- e sexta, vai ter foda?



2. prece de Estelita

Frei Galvão,
orais por nós,
Moura Dubeux,
orai por nós,
João da Costa,
orais por nós
Queiroz Galvão,
orai por nós,

#OcupeEstelita
orai por nós
#OcupeEstelita
desatai os nós
#OcupeEstelita
recolhei os pós
#OcupeEstelita
morai por nós


quarta-feira, 14 de maio de 2014

três trapos tristes mais rinite [receita pra ganhar dinheiro]

1. "Bocada". começar livro tem que ter palavra boa. põe "bunda", "boceta", "bodega" e "punheta"
["é Brasil, porra":
lábi@ e lombo]

2. então cite excitado
Sartre, Saint-Simon
Foucault, de Laclos
[francês é chato mas é chique
e o que é sonso, salga]

3. descasca uma fruta
pendura o pijama
na ponta do pinto desfaz tua cama
[reclama, mas ama]

4. então deixa de viadagem
faz pausa programática 
vai no Face e trabalha
[tua fama é tua arma]

5. Word repleto - contato ligeiro - dinheiro no bolso - sucesso certeiro
[a rima é pobre, a casa é rica]

segunda-feira, 5 de maio de 2014

rolling in the deep

Vesna Vulović
caiu dez metros vezes mil
e sobreviveu.

Vesna não é vesga
Vesna não voa
Vesna não é nada

Pedra que bate ao chão
pula
e estaca.

Mas Vesna está viva depois da queda,
calada.


domingo, 4 de maio de 2014

filiações

hipsters enamorados. mentes abertas e sexos.
um dia a encontrou imersa em gozo diante do tablet. tanto fez.
semanas depois queria saber que mundos ela habitava dentro do aparelho. para sua surpresa, frutas sem etileno se alargatixavam-se em dezenas de selfies. tsunami: imersão, destruição e emersão. inquiriu-a, mas - que coisa! - bem a queria...
em casa, quatro paredes e vértices. dançou a noite inteira em vórtice. empolando-se, crescia em amplitude.
!tempo!
espraiava-se na casa até tingi-la de águas abissais.
!tempo!
a casa ao sol, torcida até o último pingo.
!tempo!
quietude. zapeou-a e num zapt estava a navegar as paredes de seu útero. chez lui. palavras.
- não patologize meu desejo.
caminhava sobre os destroços lambuzando-se do passado preservado.
- corra a correr de currais.
eram sós, ele e ela.
- só querem fatiar nossa carne.
ela e ele, sós.
um dia a campainha tocou. à sua frente uma banana verde caída do pé. pegou-a. sem cascas, com medo, envolveu a brancura selvagem do fruto. amaciou com a saliva. moldou os lábios às curvas.
assim o encontrou a moça antes do fruto os comer.
muito depois, cortados em fatias, foram servidos em salada de frutas com muito leite condensado. águas marinhas não são salgadas à toa.