quarta-feira, 13 de agosto de 2014

contrato

homem repentino, não cometas a ousadia de me cuidar
cada olhar de afeto fratura uma coluna de minha geleira
e logo sou nada mais que entrega em teu percurso

não cometas a ousadia de ofertar cuidado a quem arde
destruir defesas desarmar minas devassar trincheiras
se apenas caminharás adiante rente a tua rota

não me dês teus olhos vermelhos de trabalho
tuas mãos frouxas de leituras teus pés tortos de sentado
nem escancares teus medos desejos planos de mudança

a quem te quer imerso nas delícias de meu corpo
inteiro em presença de minh'alma sorvendo meu gozo
não me espante.

Título desconhecido, 1978, Zdzislaw Beksinski

busto

nesse domingo
de correções
e mosquitos
clico lívido
num link hábil

e teu rosto vívido

me soca o centro

há fotos que são

um passo ágil
pro cadafalso

China  Bust nº 35, de Ah Xian

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

calvário

não são tuas mãos que me movem

e quando crês andar pelos labirintos de Deus
andas só pelo vapor de teu sopro.

eu te deslumbro a alma
(essa mesma, que crês longínqua e domesticada)
apenas com meu desgosto.

teu verbo é só verbo
o meu é mistério.