naquele dia,
quando me dissestes não,
eras-me tudo
e fostes embora.
não te tinha, nunca te tive,
mas só em ti
encontrei espelho
da palavra desejo.
intenso,
mesmo teu 'não'
foi cuidado e atenção.
eras-me tudo.
II.
te esperei em meu quarto,
deitado na maciez do colchão.
fi-lo côncavo.
adestrei minha fala,
aparei meus versos,
cortei unhas e cabelos.
pus roupas
de tecidos
jamais antes
conhecidos.
visitei rostos,
afaguei ossos,
fiz esboços.
III.
te esperei fitando o desdobrar de meus dedos.
abandonei esquinas e cruzei igrejas.
conheci deus.
foram dias intensos
tateando as frestas do rosário,
estuporado no fervor de minhas preces.
li extasiado os evangelhos e salmos.
e te descobri promessa de advento.
semanas viraram meses
revirando páginas convertido.
mudei os móveis, pintei a sala.
IV.
tu, em mim, jesus menino,
crescias esplendourado.
saltando astros fascinado
e logo feito homem
nutrido da palavra
tocavas-me a vara.
multifacetado alquímico necessário
eras tu no topo de cada lábio.
e eu catava moços enciumado,
cortando-lhes o dorso em retalho.
tornei-me douto em mosaicos.
V.
eras mil habitando meus poros
até que tomei teu nome
a ponto de quase te ter.
mas te vejo hoje só bonito moço viçoso
denso e centrado em calcar teu passo.
porque és dois: carne que rejeita
metáfora que abarrota.
tua partida me deixou um nada
gestado imenso em meu mundo.
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| Dan Bristy, autoria desconhecida |
