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| Head I, Francis Bacon, 1948 |
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
desculpe, foi engano
esses que hoje me leem e se exibem e me acham foda e culto são os mesmos cults ignorantes que passaram a meu lado sem sorrir. os grandes sempre me viram como mais um. um a mais, mas sem graça. no máximo ofertaram seu querer bem, mas só porque me cultivei, me fiz amável. andei todas essas ruas como um rapaz magro e estranho. ora fui visto pela mancha da herpes ou olhos inchados, ora me fiz ver pelos óculos grossos, cabelos armados. mas fui um cara qualquer. cazuza pobre. guimarães estivador. clarice negra. fui moreno, quiçá-fosse-negro, fui bicha, fui pobre. tímido retinto. muitos amigos de telefone-sem-fio. poucos amigos de telefone. esses que hoje me leem e gargalham minha dor, arrotam meus versos, engasgam no meu cuspe, esses liam Leminsky, liam Miró, liam tudo nem muito pop nem desconhecido que fosse devido ler. e eu recitando poemas de banheiro, me masturbando atrás das portas nos banheiros, sonhando as portas escancaradas, os lábios em meu mastro, mas apenas portas fechadas de banheiros vazios. li Clarice aos 16, Rosa aos 22, Calvino nunca li. devorando desde jovem revistas de verdades inúteis e filmes free blood. hoje se me leem é porque meu ódio foi encarcerado em papel. minha visão que sorvia plenitudes que queria ser global Deus hoje vê centenas de grãos amalgamados de terra. é terra e húmus e portanto nada, porque areia só vale quando constrói frutas ou paredes. esses que hoje me leem não me entendem e acham legal se digo "pústula" e é minha mãe, meu amor, minha única e imensa mãe, e me leem rápido, procurando seus amores, e me postam, curtem e todos são fodas porque me leem e eu os entendo. mas não entendo nada, estou só puto de leitores. puto de dedos revirando minhas páginas à procura de versos. esbanjei poesia na massa branca de minha porra. toda ela escorrida no ralo alimentando esgotos na cidade. e se escrevo, essa outra punheta, é só pra não me esquecer que desejei teu filho naquela camisa laranja lindo sobre as árvores e sua face angélica assustada com o flash. escrevo pra lembrar que odiei te rever naquele bar tão redonda e mesquinha, bitucando minha bochecha com menos ardor que a de seus cães. escrevo porque contive o tapa antes de rasgar minha mão em teu rosto de faca. escrevo porque dissestes que desejava homens másculos e meu membro saltava na dor pra te emascular. escrevo porque tantas vezes já expliquei porque escrevo que não me lembro do que disse e digito nesse teclado branco como se voltar a me explicar pudesse presentificar o que não entendo de mim. o porquê escrevo se nenhum tostão me vem e tu não me entendes e quem hoje me lê precisava estar trucidado pra se consertar esse mundo.
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